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Su.jeitinho brasileiro


I

Que Gotham City é uma cidade violenta não há dúvida. O que me preocupa agora é que, talvez, Batman já não esteja dando conta. Em tempos de final de ano (e de década), a intolerância estúpida (perdoem-me a redundância, mas é assim mesmo) anda comendo solta no convívio urbano da província. E aí, lamento informar ao nosso digníssimo (de)formador de opinião sobre o seu erro de cálculo. O problema não é da massa de pobres petulantes que invadem as ruas com seus Chevettes “tubarão”. O problema é generalizado.
Sexta-feira, final de tarde. O sol andava alto e quente. Estacionamento de um grande supermercado. Fila de uma dúzia de carros para sair pela única “cancela” eletrônica (nome sugestivo não?) em funcionamento. E ela não vai bem. Vocês sabem, essas coisas eletrônicas às vezes dão problema. E, em geral, nos piores momentos. Com a relativa demora da cancela e a evidente pressa de alguns citadinos, uma segunda fila lateral passou a se formar. Como falei anteriormente, só havia uma cancela (bem, vocês imaginam o que vai dar não?).
Um cidadão branco, devidamente escanhoado e empoderado por sua recente aquisição, um modelo sedam da fábrica do nosso salvador (de fazer inveja até no homem morcego), simplesmente “pressiona firmemente” uma mulher – que, resignadamente, aguardava sua vez de sair há bons 15 minutos – a dar-lhe seu lugar na fila, inserindo a frente do automóvel diante do dela, com aquele sorrisinho típico de um idiota crendo-se esperto.
Tentando evitar o (ab)uso, a mulher ainda deu umas duas buzinadas breves e gesticulou alguma coisa como “eu também tô aqui na fila há um tempão”. Mas foi em vão. O bonitão fez a do “não é comigo” e se enfiou. Sem qualquer constrangimento, do alto de sua autoridade de macho. Nessas horas sempre penso: eu peito e deixo ele me bater ou arrego pra não me incomodar e aceito o desrespeito alheio? É uma dúvida cruel (como todas que tenho) e sempre lesa: se não meu velho companheiro de aventuras, meu orgulho de fêmea pseudo-liberada.
O segurança do supermercado e eu assistíamos a tudo, impassíveis. Foi quando a mulher resolveu queixar-se a ele. “Fazer o quê, senhora, o cliente tá errado mas já furou a fila”, disse. Eu pensei: “que merda!” Sim. Ele já havia furado a fila e passado na frente dela. Mas agora sorria. Sorria um riso de satisfação e deboche que era transmitido pelo espelho retrovisor. Com um quase gozo doentio, esfregava na cara dela seu prazer de dominador. O segurança, no entanto, apenas queria manter-se no emprego e que as horas passassem. Rápido e sem percalços.

II

Faltava apenas o veículo da frente para o homem cruzar a cancela e tudo aquilo acabar. Foi nesse momento, porém, que ela resolveu parar de vez. Nosso querido macho ibérico, prevendo que teria de esperar uns minutos mais (até que algum técnico viesse abri-la mecanicamente para que todos enfim passassem), não se conteve e resolveu dar uma “rézinha” para evadir-se do lugar em que estava. Obviamente não havia espaço suficiente para o seu sedam realizar esse tipo de manobra. Obviamente isso pouco importava, afinal ele tinha um engate para reboques instalado em seu veículo e obviamente ele não sentiu constrangimento algum ao dar a ré, considerando que esse equipamento protegeria (como de fato protegeu) a lataria de seu carro, em detrimento do amassado que causou no carro da mulher que estava atrás (que não pode fazer outra coisa senão buzinar diante da visão do carro da frente vindo em direção ao seu).
Nessa hora meu senso de justiça, combinado com a minha solidariedade frente ao desrespeito humano, só pode ser expresso na frase “Maldito filho da puta!” que, embora seja uma frase misógina, saiu perfeitamente bem encaixada para aquele cidadão e para o segurança do supermercado que seguia olhando tudo sem tomar nenhuma atitude.
A mulher, porém, no melhor estilo “Um dia de fúria” saiu do carro e foi até o carro do cara. Chegou perto da janela e, ao ver aquele sorrisinho escroto impresso naquela cara (agora) surpresa, gritou a plenos pulmões: “Tu furou a fila e bateu no meu carro! Tu acha bonito isso, mau educado, sem vergonha!?! Tu te prevalece porque eu sou mulher né? Se fosse um homem aqui atrás tu não faria isso, com medo dele encher essa tua cara sem vergonha de porrada, seu palhaço!”
Ela disparava as palavras com uma força, uma fúria e uma propriedade alucinantes. O cara tinha a expressão congelada e apenas repetia mecanicamente “essa mulher é louca, tem que chamar a polícia pra essa mulher!” Louca ou não, ela seguia indignada dizendo: “chama, chama a polícia que nós vamos ver quem tá errado, mau educado, sem vergonha!”
Era uma mulher miúda, de 1 metro e meio que em poucos minutos ficou gigante. E ele de fato sentiu medo. Nesse momento, eu olhei pro segurança do supermercado e falei surpresa: “tu não vai fazer nada?”. Ele me respondeu, com um aparente desdém: “eu não vou me envolver em briga de cliente, senhora. Eu não ganho pra isso”. No fundo, no fundo, acho que ele também sentiu medo. Até eu sentiria.
Ele passou um recado pelo rádio a alguém que veio liberar a cancela. O idiota arrancou o carro em disparada, indignado com a “louca que questionou seu poder dominador”. A mulher seguiu resignada seu caminho, como estava antes dos seus 2 minutos de ira. O segurança continuou ali, parado, olhando o relógio de tempos em tempos e eu, bem, eu fui tomar umas cervejas com umas amigas. Porque nenhuma teoria feminista dá conta disso.
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Oh que amável cara tens!
De rir até cair a dentadura
Parada meia hora na 18 de Julio
Podes informar onde estão as ruas!
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afogamento

Decidi mudar-me. Há tempos procurava outro paradeiro. Decidi fugir do aquário em que vivia depois de muito investigá-lo sem sucesso. Deixar os limites conhecidos e já explorados para me entregar à imensidão do oceano. Ser levada pelas correntes submarinas, pelos cardumes de peixinhos dourados que elas trazem consigo sem saber onde iremos chegar...
Talvez em alto-mar, nas profundezas escuras e frias? Ou quem sabe numa baía tranqüila, de águas translúcidas? Quem saberá? As correntes marítimas não dependem apenas dos movimentos dos astros ou dos desejos dos peixes! Elas sofrem as influências do vento, que também diz a elas para onde ir. E assim nunca se sabe quem traga quem...

6.10.07


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Do manual do Laerte.
No melhor estilo oblíquo e marginal.
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Henry e eu

Ao longo da vida, tive alguns empregos. Uns legais, outros nem tanto. Na faculdade me aventurei no ofício de estagiária muitas vezes. Em uma dessas oportunidades de início de curso, minha atividade se restringia a tirar cópias de processos e atender telefonemas num escritório pequeno e conservador. Nas tardes longas ou quando não havia nada para fazer, tinha autorização para estudar usando os livros da pequena biblioteca disposta na estante alta de mogno, ou ler os processos para me “familiarizar” com as causas dos clientes. Meu chefe pouco (ou quase nunca) aparecia. Passava quase todo o tempo em atividades forenses. Restava ali, além de mim e do mobiliário, um jovem advogado recém-formado, contratado para controlar as causas mais corriqueiras e a mim. Um cara de uns 25 anos, loiro, magro, do interior. Sempre bem barbeado e de ternos cinza ou grafite. Nos momentos mais calmos do escritório ele também lia. Lia muito. Era quieto. Discreto. Parecia tímido. Às vezes, tinha a impressão de que ele não sabia o que fazer comigo. Parecia não saber mandar. Ou não querer fazer isso. Enfim, na maioria das vezes, ele era meu chefe direto. Por meio dele fazia minhas solicitações e justificações ao nosso chefe. Mas éramos econômicos com as palavras. E não raras vezes passávamos a tarde inteira mudos, lendo, cada um no seu canto, movendo-se apenas para passar o mate um ao outro. Foi através dele, em uma dessas tardes, que eu conheci Henry.
Assim, da maneira mais insólita possível, em um pequeno escritório de advocacia, fomos apresentados! Quinta-feira à tarde. Muito calor e pouco trabalho para fazer. O chefe, como de praxe, já tinha saído para as suas atividades externas com os clientes mais importantes.
Eu e o jovem advogado estávamos lá, lendo em silêncio entre um mate e outro. Ele, com seus processos e alguns livros jurídicos. Às vezes parava e se perdia na paisagem do belo jardim do prédio vizinho que se via pela janela. Eu, cansada da recorrência dos temas jurídicos, não raro levava um ou outro livro de poemas, literatura. Enfim, outras paisagens ou algo que me levasse para um mundo distante daquilo tudo. Afinal, eu precisava de ar. Novos ares. Constantemente.
Vendo que eu lia poesia, começamos a falar de literatura. Foi, aliás, a primeira vez que o via falar comigo algo que não era relativo às minhas atividades dali. Soltava frases curtas, um sorriso meio nervoso, entremeados com pequenas pausas, como que se estivesse espargindo pensamentos. Surpresa, eu respondia com frases breves, entre a concisão e o lacônico. Acho que temia assustar o interlocutor e fazer-lhe parar de falar.
Aos poucos, me perguntou o que eu gostava de ler e o que eu já havia lido. Sobre alguns autores, cujas leituras nos eram comuns, sorria timidamente e, de olhos baixos na mesa, tecia pequenos comentários sobre as histórias ou épocas em que os lera. Mas percebendo o ecletismo e a quase incoerência entre outros autores que eu já tinha lido ou os comentários que fazia, não conseguia disfarçar a surpresa, externada por pausas reflexivas ou expressões de sobressalto. Ao final, conversávamos.
Passada uma longa pausa, que parecia significar o fim do diálogo e nos levara às leituras de antes, ele perguntou se eu nunca havia sido apresentada ao Henry. Ante a minha negativa disse, entre a hesitação e a timidez, que achava que eu deveria conhecê-lo, que era um cara muito legal e tínhamos – Henry e eu – algumas coisas em comum, “apesar de tudo”. Esse “apesar de tudo” eu só entendi exatamente tempos depois. Na verdade, naquele momento, estava mais interessada em saber quem se tratava do que por que assim o tratava. Disse que o conhecera há um tempo atrás e que achava que eu iria gostar dele. Escrevia coisas legais. E que, se eu quisesse, poderia me apresentá-lo, inclusive. Eu disse, “ok, eu quero conhecê-lo”.
No dia seguinte, ele trouxe o velho Henry ao escritório. Antes de nos colocar frente a frente, porém, ele teceu algumas observações e fizemos um acordo. Henry era aquele tipo maldito, desbocado e sujo, tradicionalmente não recomendado para jovens garotas como eu. Perguntou se isso não me incomodava e se mesmo assim gostaria de conhecê-lo. Diante da minha afirmação, ainda meio incerto do que fazia, ele deu a segunda recomendação: “Henry não pode circular aqui pelo escritório”. Ele não podia ser visto pelo chefe ou por algum dos raros clientes que iam até ali. Era sexta-feira e eu poderia levá-lo comigo se eu quisesse. E assim solucionamos o problema. Com o meu ok, ele me alcançou um livro meio amarelado, com a capa rosa e um corpo de mulher retratado. Passei os olhos pelo título “Crônicas de um amor louco” e imediatamente o coloquei dentro da minha bolsa. Segui com meus afazeres como se nada tivesse acontecido.
Fui embora e me esqueci daquilo. Naquela noite sai como de costume. Voltei ao amanhecer como de costume e tive uma gigantesca ressaca no dia seguinte como de costume. No sábado à tarde, me sentei na cama e encontrei o livro jogado ao lado da cabeceira. Comecei a lê-lo e só consegui sair dali depois de devorar a última palavra da última página. Foi quando entendi o “apesar de tudo”. Era desbocado, sujo, maldito e escatológico mas também era visceral, autêntico, marginal e lírico. Durante a leitura, lembrava do jovem advogado e, por uns breves instantes, fantasiei que Henry fosse ele, engolido por esse sistema nojento o qual tanto criticava e resistia esbravejando. Escrevia relatos autobiográficos como forma de transgredir aquele seu cotidiano maçante e triste. Talvez fosse o contrário. Talvez ele fosse um tipo como Henry, soterrado por todo aquele monte de merda jurídica. Mas não.
Foto: internet
Na segunda-feira, voltei para a minha rotina no escritório com o velho safado na bolsa. Ao devolvê-lo, só consegui definir a experiência de uma forma, a única que me ocorria naquele momento, quando me foi perguntado “e então?”: “ducaralhu”. Ele abriu seu tímido sorriso ao confessar que “sabia que eu iria gostar do Henry”.
Dessa vez em diante, todas as sextas-feiras ele trazia Henry Chinaski para passar o final de semana comigo. E assim seguimos silenciosamente.

(N. A. : uma memória desencavada do baú por Andrea.)
 
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