0

soluço

Numa manhã ensolarada de novembro, no interior do T9, uma jovem mulher chorava silenciosamente sentada ao meu lado, enquanto olhava as ruas passando lá fora, pela janela. Por sob os grandes óculos escuros, as lágrimas rolavam quietas e salgadas pelo seu rosto, e eram aparadas, ao lado da boca, com o lenço de papel. Ao seu lado, só me ocorreu dar-lhe o lenço. Embora eu também tivesse vontade de lhe dizer “chora, chora à vontade”. Eu não sabia e nem queria saber os motivos. Mas a julgar pela minha vida, há muitas razões para chorar. 

Tira de Ricardo Siri Liniers

0

1

(des)equilíbrio

Imagem da Internet

Eu era bem pequena quando aprendi a andar de bicicleta. Usei aquelas com as rodinhas laterais, até uma determinada época em que meu irmão começou a me ajudar a andar sem elas. No início retirou uma, de forma que, se eu perdesse o equilíbrio, ainda podia contar com o apoio da outra em um dos lados. Dependia de mim manter o controle da situação e me permitir pender apenas para aquele lado do apoio. Fiquei um tempo assim, perneta no equilíbrio. Até o dia que decidimos (não lembro se foi uma decisão conjunta ou não, mas consideremos assim) retirar a segunda rodinha de apoio. Veio ele com a chave de roda a desatarraxar meu ponto de equilíbrio, minha muleta, com uma serie de recomendações.
Agora, eu teria de me equilibrar em apenas duas rodas na bicicletinha aro 16, mas com o compromisso de que, nas primeiras vezes, meu irmão me ajudaria. Isto significava andar pequenos trechos, devagar, com ele me guiando, segurando no banco, do meu lado. E ele efetivamente fazia isso. Apesar da diferença de 9 anos mais que eu e vivermos às turras (por eu brincar com os carrinhos, botões e bonecos dele), ele cuidava de mim e corria junto na rua de saibro, todo senhor de si. Ele seguia junto e, entre intervalos, largava o banco. E claro que assim que ele dizia que o largara, eu perdia o equilíbrio e quase caía. Na maioria das vezes, ele já tinha soltado o banco antes de avisar, mas eu só vim a saber tempos depois. Aí ele voltava a segurar ou me mandava diminuir a velocidade, tentar parar sem cair. Sobre a queda, pairava a ameaça de estragar a bicicleta e a interdição das aulas. Tudo delicadamente acertado aos gritos, no meio da rua. Em uma das vezes, ele soltou o banco e seguia correndo junto, sem avisar. Apenas dizia, “vamo guria, presta atenção que eu vou largar” e eu pedindo que não ainda, que me desse mais um tempinho. E ele ali, correndo e gritando “vou largar, vou largar”. Foi quando ouvi ele gritar “vou largar, larguei!”, mas o grito já não era no meu ouvido. Ansiosa e sem me dar conta, já havia me afastado dele, que já não mais corria junto. Andava sozinha e não sabia direito como parar. Assustada, perdi o equilíbrio e cai na frente da casa do velho Peralta, que acompanhava tudo do muro e sempre tinha uma reclamação pra tudo.
“Levanta, vamo! Levanta a bicicleta e sai do meio da rua! Vamo guria!” ouvia meu irmão gritar, se aproximando. No susto, levantei e puxava a bicicleta para deixá-la de pé. “Te machucou, não né, então deu. Acabou de bicicleta pra ti!”. Na queda, arranhei a mão e esfolei o joelho. Nem sentia o fio de sangue que escorria na canela. Olhei pro lado o velho assistia a tudo sorrindo. Meu irmão me tomou a bicicleta e seguíamos em direção à casa. Na volta, proferia palavras de incentivo, dignas da pedagogia familiar de fazer inveja no exército israelense: “Bocaberta! Já tava andando sozinha muito antes de eu falar que ia largar. Burra!”
Chegamos em casa meu irmão guardou a bicicleta e eu fui tratar dos meus ferimentos. “Anda lá no tanque, lavar com sabão isso aí!” alguém me gritou e eu já previa o que estava por vir.

Sentada depois, no degrau da escada, eu lembrava faceira o trajeto que andara sozinha, sem rodinhas, o frio na barriga, o ventinho que passava por mim. Já pensava nos próximos dias. Isso até eu começar a sentir meu joelho latejar (e queimar quando eu flexionava para andar), me fazendo lembrar da queda, do velho Peralta risonho no muro, do discurso do meu irmão e de que foi bom enquanto durou. E que agora eu tinha um joelho doído para curar.
0

Mulher fruta

Cada vez que um homem chama 
De gostosa uma mulher
Alguma coisa dentro dela morre, apodrece.
É como se da boca dele partisse a declaração
De sua condição de fruta
Objeto provocante de deleite 
E de usufruto. 


0

amor secreto

E a cada vez que eu te encontrar
Que eu olhar nos teus olhos
Que eu ver o teu sorriso
Ou ouvir tua risada
Esteja certo que
Baixinho para mim mesma
Ou mesmo em pensamento
Eu te direi agradecida
Ao invés de dizer eu te amo
Para que tu não te constranja
Ou alguém saiba
Daquilo que nem nós
Entendemos
Exatamente o que foi


 
Copyright © oblogueobliquo