L7
MANIFIESTO
el último suspiro de una estrella moribunda
apresentação de mais uma pesquisa aventureira, transitória e violenta
reflexões e visões em um horizonte distante, distante
almoço na Lanchera com uma grande parceira de viagens várias
dia de sol, ventinho ameno e Gotham de céu azul, azul...
quem disse que o paraíso e o inferno não são o mesmo lugar?
A(s) Ciência(s) a serviço de que(m)? Ou para (des)entender o (in)humano
Lavrado o flagrante, o inquérito policial foi encaminhado ao Ministério Público que procedeu com a denúncia. O juízo recebeu a denúncia por tráfico ilícito de entorpecentes. O acusado foi citado, interrogado e o processo transcorreu em normalidade. Nos autos constatou-se a materialidade dos fatos alegados, conforme exames juntados. Quando interrogado, o acusado confessou estar de posse de referida substância, alegando, no entanto, que era para uso próprio. Comprovada a autoria e materialidade, fora acolhida a acusação e condenado o denunciado. Na sentença, fica evidente a grande reprovabilidade da conduta, totalmente nociva ao meio social, bem como a personalidade violenta do acusado que reagira com resistência e agressividade à autoridade policial. Conduta social desabonadora, ao expor a saúde pública a perigo, face ao delito que praticou. A pena imposta foi de 8 anos e 5 dias de prisão em regime inicial fechado.
Iniciou o cumprimento da pena na Cadeia Pública da cidade de Valas/MT, em cela individual, dividida com outros 12 reclusos. Após 7 meses de cumprimento, o apenado passou a desenvolver atitude de isolamento e histeria, recusando alimentação e tendo crises recorrentes de choro. Avaliado pela junta médica e psiquiátrica, foi constatado quadro depressivo agudo, com relato de ilusões auditivas mais frequentes no período noturno. Recomendada a conversão da pena privativa de liberdade em medida de segurança, pelo prazo de 3 anos prorrogáveis, a ser cumprida em hospital psiquiátrico forense daquela cidade.
Encaminhado ao hospital de custódia, o internado relata no exame psiquiátrico dores no peito, fadiga, falta de ar e crises de pânico, desde que fora recolhido na Cadeia Pública. Alega que suas dores de cabeça agravaram-se e que lhe eram fornecidas 2 aspirinas por semana. Informa episódios noturnos com pesadelos e ilusões auditivas utilizados como justifica de suas duas tentativas de suicídio.
Quanto ao crime praticado, nega os fatos elaborando quadro paranóide. Afirma tratar-se de um antropólogo, que desenvolve uma mapeamento genético das comunidades indígenas do Parque Nacional do Xingu e que está sendo perseguido pelas autoridades locais. Diz que a substância encontrada consigo era o medicamento que utilizava para a neurastenia e que, mesmo em grande quantidade, era para consumo próprio. Afirma que as ampolas, seringas e bolsa térmica encontrados em seu poder era seu material de pesquisa, utilizados para a coleta de sangue de seus pesquisados. Fala com fluidez e desenvoltura e não demonstra arrependimento dos fatos praticados. Alterna uma postura vitimizada com um discurso rebelde e ameaçador. Relata que mudou-se para o Mato Grosso aos 15 anos para trabalhar, deixando sua mãe e irmão no interior de Quaraí/RS.
Quanto ao histórico de vida, há registros de que não conheceu o pai, que foi morto antes de seu nascimento. A mãe trabalhava em um bar na beira da BR-290 e foi presa duas vezes por desacato à autoridade. Perdeu o contato com os familiares a mais de 8 anos, não sabendo precisar onde encontrá-los. Não estabeleceu outros laços familiares, não casou ou possui filhos. Seu único relacionamento afetivo foi aos 24 anos e durou cerca de 9 meses, quando foi rompido sob suspeita de traição, causando-lhe sério trauma a separação. Desde então, passou a morar sozinho, em companhia de 6 gatos.
Através de personalidade rude, demonstra ser arredio e amargurado. Teve diversas tentativas de trabalho, com improdutividade profissional, em tarefas simples e tacanhas. Envolvia-se em brigas, discussões e passou a beber e frequentar bares em regiões de prostituição. A vivência de rejeição e ausência de vínculos afetivos o impulsionaram para a vida criminosa, não possuindo juízo crítico quanto aos atos que pratica. Recita poemas de Fernando Pessoa, canta tangos de Astor Piazolla, adora à Raul Seixas e assedia funcionárias. Investiu contra uma enfermeira, precisando ser medicado e isolado por duas semanas. Entretanto, nega os fatos afirmando que ambos mantêm um romance. Demonstra insensibilidade e frieza no trato com os demais internos, retórica estereotipada do que entende por amor e liberdade, discurso desafiador e visão instrumental e objetificante das demais pessoas. Personalidade manifestamente perigosa, de difícil recuperação, ainda não beneficiado com o tratamento penitenciário. Inapto para o convívio em sociedade.
Recomendo a administração diária de 33ml de globiscamina por via intravenosa, sedação e doses de 500mg de ácido acetilsalicílico, via oral, diárias. Sugiro a restrição de acesso do internado aos livros, jornais e ao rádio como forma de auxiliar no seu tratamento terapêutico, diminuindo, assim, a recorrência dos delírios.
Júlio César Teophilus
Egologista
CREgo 78.541
Valas/Mato Grosso, 6 de julho de 2048.
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Durante o mestrado, fiz duas cadeiras no pós da psicologia. Uma das experiências mais ricas do período, aliás. Além dos colegas serem pessoas incríveis, com os quais compartilhei bons debates e momentos únicos, as aulas eram muito afudê. Em um dos meus surtos, resolvi arriscar e escrever este texto. Estava preparada para levar umas críticas mais duras, óbvio, já que tava metendo a caneta na ferida deles, embora soubesse que não seria linchada por um grupo de psicólogos radicais e a professora não é nenhuma cognitivista-comportamental-behaviorista-or something. Para minha surpresa e honra, não só não fui criticada, como me foi pedida autorização para leitura e discussão do texto em aula. Boa lembrança que me vem hoje, quando o reencontrei entre minhas tralhas...
(sobre)transgressão...

Alguns poderão imaginar que, sendo esse apenas mais um reflexo de uma sociedade desestruturada, cuja corrosão dos valores sociais, morais, religiosos e éticos lhe impele aos caos e à barbárie, certamente, a vaca foi destruída por vândalos sádicos, vendida por uma ninharia para camelôs inescrupulosos ou trocada por pedras de crack.
Outros poderão criar uma relação desse ato com uma noção histórica do “ser gaúcho”, o homem desconhecido e (também por isso) temido, que vagava pelos pagos, supostamente furtando gado e tocando terror nos estancieiros e nos peões detentores de “papeleta de conchavo”. E isso seria, tão só, uma manifestação identitária das tradições regionais. Nada mais.
Há quem avente a possibilidade de esse ato ter um significado localmente identificável e compreensível, desde a teia de relações presentes nas interações citadinas. Assim, se a proposta inicial da instalação era gerar uma interação social com a arte que ela representa, essa conduta pode ser entendida como uma apropriação ressignificada desses sentidos pelos atores sociais locais.
Uns indivíduos acreditarão que se trata de um ato de protesto vegan contra o sistema de produção e consumo de carne, se utilizando da violência da subtração da vaca como uma alegoria à subtração violenta das vidas dos animais criados para alimentar o mercado faminto por carne.
Para alguém, pode ser um cara que, rindo aos borbotões e escutando “Cowboys from Hell” no MP4, a utilizou em um ritual satânico, de acordo com o que a voz na sua cabeça mandava.
Não falta quem seja capaz de apostar que essa é uma estratégia de marketing que, utilizando-se da mídia para noticiar o suposto desaparecimento de uma das vacas, acaba por gerar maior publicidade ao evento.
No entanto, apenas um grupo de pessoas dotadas de reputação ilibada e notório saber tem, de fato, certeza do que aconteceu. "Trata-se evidentemente de um crime", afirmam. Afinal, tem-se uma conduta típica, antijurídica e culpável perfeitamente identificável! Mas essa assertiva por si só não é suficiente para pacificar a questão entre os operadores desse código. Sobretudo quando o caso é dotado de certo ineditismo...
Outros defendem tratar-se de crime de dano na instalação que, retirada a coisa móvel do local onde se encontrava, foi inutilizada e/ou deteriorada na sua razão de ser. "Causado o prejuízo na proposta original da instalação, inasfastável, pois, a qualificadora", sabiamente complementam.
Entre outros integrantes do grupo há, ainda, a discussão que garante que o crime em questão é apropriação de coisa achada pois, resta claro que lugar de vaca não é na esquina e ninguém a abandonaria aí. Na melhor das hipóteses, o dono teve a infelicidade de perder o referido animal quando passava no local e, partícipe desse infortúnio, o autor apropriou-se da res perdida e não a devolveu, mesmo sendo absolutamente possível a localização de seu proprietário, afinal, poucas são as pessoas que perdem vacas coloridas na cidade.
Uns poucos defendiam que de fato o autor se apropriara da vaca encontrada na esquina mas, fiel cumpridor dos seus deveres, não a devolveu pois não soube como fazê-lo, já que a norma não especifica a qual autoridade competente deveria dirigir-se e tampouco transcorreu os 15 dias para que pudesse descobrir isso. Assim, afirmavam que, mesmo cometendo crime, minimamente, teria de ser absolvido.
No fundo, no fundo, EU não posso evitar um sorriso diante da sacada desse(s) cara(s) nesse ato de (sobre)transgressão...
Quem souber ou imagina o que tenha acontecido com ela, me conta!
O dono da vaca, inclusive, oferece uma recompensa para quem devolvê-la ou der pistas do seu paradeiro.
E ao acabar de escrever esse texto, soube por uma fonte que uma segunda vaca teria sumido também. Dessa vez, a que estava na Dr. Timóteo... (será???)
I'm afraid of Americans
I'm afraid of the world
I'm afraid I can't help it
I'm afraid I can't
I'm afraid of Americans
I'm afraid of the words
I'm afraid I can't help it
I'm afraid I can't
I'm afraid of Americans
God is an American
A experiência alemã...
Uma dor de separação
E dói muito
E aperta o peito
E eu choro
Tá chegando um tempo de despedida
Mas eu não quero
Deus! Eu não quero
Por quê tem de ser agora?
Não precisava ser agora
Não podia
E eu choro
Quando olho pra ti
Quando te toco
E quando tu não está aqui
Ao reconhecer que assim será minha vida
Sem ti
Dói muito
E eu choro
Dói não poder evitar a partida
Dói não conseguir fazer passar a dor
Do sofrimento
Da despedida
Da ausência